Internação no interior de SP, uso de canabidiol e memórias da carreira: a luta de Maguila pela vida

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Em depoimento exclusivo ao ge, ex-boxeador revela hábitos na clínica onde mora há cinco anos em Itu, no interior de São Paulo, e trata doença incurável para melhorar qualidade de vida

As perguntas são comuns entre os amantes do boxe e do esporte brasileiro. Como está e por onde anda o Maguila? Um dos maiores nomes da história do puglismo nacional, José Adilson dos Santos Rodrigues mora há cinco anos em uma clínica de Itu, no interior de São Paulo, onde recebe tratamento paliativo em busca de melhor qualidade de vida e longevidade.

Aos 63 anos, Maguila convive há vários anos com a Encefalopatia Traumática Crônica (ETC), também conhecida como “demência pugilística”, doença neurodegenerativa evolutiva e incurável. O caso do ex-boxeador tem relação direta com os incontáveis golpes sofridos ao longo da carreira de duas décadas no esporte.

– Quero mandar um abraço para todo o povo brasileiro que me viu lutar. Estou bem e fiquem tranquilos. Só não posso mais lutar, mas estou bem. Essa doença que nem sei falar o nome, mas é difícil. É para o povo ficar tranquilo que estou bem – disse Maguila, com exclusividade ao ge, vestindo a camisa do Corinthians, seu time do coração.

Irani Pinheiro, esposa de Maguila, gravou um vídeo exclusivo (assista acima) para o ge mostrando a rotina do boxeador em um bate-papo que mostra as condições de saúde do ex-atleta, que não acumulou fortuna ao longo da carreira e depende do trabalho da esposa e da ajuda de profissionais para ter o melhor tratamento possível.

O tratamento recebido no Centro Terapêutico Anjos, em Itu, é paliativo e busca estender com qualidade os anos de vida que Maguila tem pela frente. A rotina consiste em atividades programadas e que potencializam as respostas do corpo do ex-atleta. Entre as tarefas prediletas estão rever lutas clássicas pela televisão e nadar na piscina toda manhã.

A luta de boxe mais comentada no Brasil nos últimos anos, entre Popó e o comediante Whindersson Nunes, não teve a audiência de Maguila, que segue rotina de sono controlada.

O ex-boxeador recebe frequentemente na clínica a esposa. Recentemente, Maguila conheceu duas netas em visita da família.

– O Maguila está bem, ele tem uma doença degenerativa e progressiva, mas temos uma equipe que cuida dele 24 horas. É uma equipe que vem trabalhando para que ele tenha uma qualidade de vida melhor. A cada dia a gente vê o carinho que as pessoas têm pelo Maguila – disse Irani.

Maguila lutou profissionalmente entre 1983 e 2000. Ao todo, foram 85 lutas oficiais em 17 anos, com cartel impressionante de 77 vitórias – sendo 61 por nocaute –, sete derrotas e um empate técnico. Entre as lutas mais especiais, confrontos contra nomes como Evander Holyfield e George Foreman, luta que completou 30 anos ano passado e foi relembrada com carinho e humor por Maguila.

Maguila em luta contra Evander Holyfield, em Nevada, nos Estados Unidos, em 1989  — Foto: Arquivo/Agência Estado

Maguila em luta contra Evander Holyfield, em Nevada, nos Estados Unidos, em 1989 — Foto: Arquivo/Agência Estado

Canabidiol no auxílio ao tratamento

 

Diagnosticado com Encefalopatia Traumática Crônica (ETC) antes dos 50 anos de idade, Maguila foi tratado como se a doença de Alzheimer fosse a responsável pelo transtorno. Apenas em 2015, com o apoio do neurologista Renato Anghinah, que também tem o ex-pugilista Éder Jofre como paciente, que Maguila passou a ser tratado com base no principal fator que o fez desenvolver a doença: os inúmeros golpes sofridos na cabeça ao longo da carreira.

A mudança de humor e de comportamento de Maguila ajudaram a diagnosticar e chegar até a formulação ideal para o tratamento da ECT. Foi então que o neurologista optou pelo composto de Canibidiol, com formulação de menos de 0,3% do THC (Tetra-hidrocanabinol), para auxiliar outros medicamentos.

Atualmente, são dez os medicamentos à base de Cannabis que possuem autorização de importação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), todos com uso restrito sob prescrição médica. O tratamento à base do canabidiol contribuiu para Maguila recuperar algumas funções motoras, a memória e o humor no dia a dia.

– A mudança de diagnóstico foi importante para ele. O caminho a partir disso sem dúvida deu melhor qualidade de vida. Não é o canabidiol que salvou o Maguila, mas o diagnóstico preciso do que ele necessitava. O comportamento dele hoje é mais tranquilo, não fica dopado. O Maguila sempre foi uma pessoa dócil antes do diagnóstico da doença, mas começou a ficar mais irritado depois disso. Hoje, ele conversa tranquilamente sem perder a atenção. Temos uma interrogação sobre a evolução da doença porque anteriormente não tratávamos a doença. Hoje os pacientes ficam muito bem por muito tempo, então não temos mais a certeza da evolução da doença. Estamos em uma nova etapa da doença, podendo ter o entendimento de que tratando os sintomas eventualmente podemos modificar o curso dela. Ou impedindo que ela evolua tão rápido ou conseguindo frear de alguma maneira. Certamente os tratamentos modificadores da doença melhoraram a qualidade de vida – completa o neurologista.

Outro fator que, segundo a família, ajudou na reabilitação de Maguila, foi o contato com Willians Meira, dono da clínica e ex-jogador de futebol, que mantém relação diária com o ex-pugilista e virou praticamente membro da família, convivendo e participando de reuniões e festas.

Mesmo com a evolução clínica e com a eficácia do tratamento, Maguila não tem previsão de mudança para a casa, já que necessita de cuidados 24 horas por dia e do controle médico que só consegue ter com acompanhamento especializado.

Fonte: ge