Bronze em Tóquio, Cargnin abre 2022 em nova categoria: “Não conseguia comer”

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Seleção inicia ano no Grand Prix de Almada, em Portugal, com desfalques por Covid e caras novas

Logo depois da conquista do bronze olímpico em Tóquio o alerta foi ligado. Entre a competição do meio-leve (66kg) e a disputa por equipes, em menos de uma semana, Daniel Cargnin ganhou mais de quatro quilos. De olho no ciclo para os Jogos de Paris 2024, o medalhista decidiu ouvir o próprio corpo e subir oficialmente de categoria. A estreia no peso-leve (73kg) será no sábado. A seleção brasileira inicia a temporada no Grand Prix de Almada, em Portugal, de 28 a 30 de janeiro.

Se no início do ciclo a diferença a ser perdida era de cerca de um quilo, às vésperas dos Jogos esta margem cresceu e tornou o processo de adequação ao peso para competir mais duro. Nos raros momentos de folga e lazer, Cargnin não conseguia relaxar. A preocupação com a dieta o impedia.

– Em tudo o que eu fazia eu pensava no peso. Eu saía de férias e não conseguia comer alguma coisa. Minha comida predileta é pizza, e eu não conseguia comer sem pensar que uma hora teria que perder aquilo. Estava pesando muito para mim não conseguir aproveitar os momentos de lazer. Comecei a tirar muito peso, com minha massa magra já alta para a categoria. Tive que virar a página.

Depois da medalha, Cargnin atendeu a uma série de compromissos com patrocinadores e com a imprensa. Ficou surpreso quando ouviu da comissão técnica que estaria escalado para lutar na disputa por equipes mistas improvisado no peso de cima, até 73kg. No dia da competição estava com 72,4kg. Se saiu bem, vencendo Tornike Tsiakadoea no confronto entre Brasil e Holanda.

Durante as férias ganhou um pouco mais de peso, e no retorno aos treinamentos conversou com os profissionais que o cercam. Preparador físico, nutricionista e técnicos da Sogipa e da CBJ foram unânimes no apoio à mudança.

– No pós Olimpíadas cheguei perto de 75kg e pouco. Quando fui para a Olimpíada, eu tinha na minha cabeça que era uma chance só para medalhar nos 66kg e que ia aproveitar da melhor maneira que eu pudesse. Depois ficou a dúvida. Eu tinha conseguido a medalha, como iria começar algo novo, do zero? Mas depois de muitas reflexões achei que era o melhor tanto pro meu corpo quando para o meu psicológico. Vou seguir focando no meu melhor.

Daniel Cargnin conquistou primeiro bronze do Brasil nas Olimpíadas de 2020 — Foto: Gaspar Nóbrega/COB

Daniel Cargnin conquistou primeiro bronze do Brasil nas Olimpíadas de 2020 — Foto: Gaspar Nóbrega/COB

Na nova categoria, Cargnin terá de cara dois grandes desafios. Um é recuperar os pontos no ranking. Agora zerado, ele possivelmente vai encarar pedreiras logo no início das competições que participar. O outro é compensar a envergadura menor do que dos adversários. O brasileiro mede 1,68m.

– A maioria é mais alta que eu, por isso que já estou indo para essa primeira competição em Portugal. Acabei de subir e já vou lutar para ir conhecendo. Acredito que todos vão querer pegar meio em cima. Tenho que achar uma maneira de conseguir meu judô mesmo sendo um pouco mais baixo. Tenho estudado, vendo vídeos na internet para mapear os atletas.

Brasil tem três desfalques por Covid

 

Neste início de ciclo, com muita renovação, a seleção brasileira conta com 34 atletas e foi dividida em dois grupos de 17, para que cada um tenha a oportunidade de participar de três competições no exterior neste início de trabalho.

Do grupo inicialmente inscrito para competir em Portugal, três atletas não puderam embarcar por terem testado positivo para a Covid-19: os medalhistas olímpicos Mayra Aguiar e Rafael Silva e o meio-leve Willian Lima. Eles se juntarão à delegação na próxima semana para a disputa do Grand Slam de Paris.

Rafaela Silva será cabeça de chave e terá ótima oportunidade para subir no ranking — Foto: Divulgação/CBJ

Rafaela Silva será cabeça de chave e terá ótima oportunidade para subir no ranking — Foto: Divulgação/CBJ

A crescente onda de contaminação não atingiu só o Brasil. Dos 460 inscritos para o evento apenas 301 poderão competir em Almada após a realização dos protocolos no embarque e na chegada. Tantos desfalques abriram margem para situações curiosas. Hoje apenas número 175 do mundo, Rafaela Silva será cabeça de chave e tem uma ótima oportunidade para somar pontos e recuperar posições na categoria até 57kg.

Em Portugal estreiam como integrantes da seleção principal Julio Koda (73kg) e Guilherme Schimidt (81kg), no masculino, e Amanda Lima (48kg), Yasmin Lima (52kg), Jéssica Lima (57kg) e Beatriz Freitas (78kg). Na comissão técnica, também será a primeira competição com Kiko Pereira e Sarah Menezes no comando.

– Assim como o Brasil está, todo o mundo está se renovando muito. Há muitos atletas novos, desconhecidos. A equipe do Japão, por exemplo, será bem jovem, não conseguimos nem achar informações sobre eles, imagens, lutas. Todos estão nesse processo de renovação num novo ciclo olímpico, muito curto, onde todo mundo esperava que a pandemia já estivesse aliviando, e não está. Aqui expectativa é boa. Mas tem atletas que deixaram de vir e poderiam estar brigando por medalha – disse o gestor de alto rendimento da Confederação Brasileira de Judô, Ney Wilson.

Fonte: Ge